segunda-feira, 18 de maio de 2015

Os arcos das luzes quando fechamos os olhos, as pétalas de flores que nunca vimos - num baloiçar rente ao chão - o quente das chaves de portas fechadas, ou o verão que nos deixa acreditar, mais uma vez, no que nunca pensámos sequer.
Faz-se uma rede para não ser doloroso, mas faz-se também sem saber, o que enaltece esta arte inigualável de um requinte purpúreo que roça o irrepreensível. Uma hipótese de acamar nas núvens, seja longa ou curta a queda. E por aqui vamos, porque os poucos que não aceitam, ou simplesmente não sabem porquê, são vários, sendo ou não a mesma pessoa. 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Inquietude. 
A minha voz na tua, de olhos abertos, num ritual não praticado, mas vigente.
Em qualquer momento, como quem sonha um abismo, mas desenha céus de estrelas apagadas.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Se as palavras se descolam dos meus dedos, na inocência, a culpa é dos finais. Aqueles que implicam um não te percas. Um único, tão só assim. Um desarranjo, porque a vida nos mata ao segundo e eu posso adiar a dor por intervalos. Porque esses instantes me afogam e eu gosto do declive. Não faz sentido estar sempre à superfície, se ao fecharmos os olhos durante a descida, lavamos as esporas e somos simples e irremediavelmente reais.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A tristeza é tão grande, que lhe sinto o peso, o perfume. Abraça-me e enleia-se nos poros. Serve-me nas noites mais frias e, dimensionalmente, cala e segura-me as mãos reservadas.
Mas o Inverno vai acabar, e o calor deste profuso abraço vai-me afogar. 
Por camadas. 
Como escadas que eu não quero descer.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Ontem sonhei com cavalos sem cabeça. Dançavam ao som de uma harpa feita de cordas de navios afundados.
Através do chão de acrílico ou gelo, consegui ver as cordas esticadas. Aquela forma de ver até onde a vista alcança.
Compreendi que ali iria abismar os abalos e as futuras infinitas réplicas. Ficariam protegidos por uma singular e macia ordem secreta. 
Submersos, como se nunca tivessem trespassado a película das artérias.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Por vezes afundo-me, e quando sinto as arestas da descida arranhadas no meu contorno, fecho os olhos com força e sigo.
Suspensa, como que à deriva de coisa nenhuma.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Se dói, é sim. Se fere, é importante. Mas recusamos sentir, porque não queremos arquejar. Esses momentos passam, e um dia, cobertos de poeira, serão apenas aquele instante que nunca deixámos entrar. Porque era importante. Assim mesmo. Sem nome. 

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Poderei voltar a ser como fui durante anos a fio? De uma intocabilidade nata, quase feroz. No meu próprio lugar, a redoma que teci com uma verdade e habilidade invulgar. Dia após dia. Embora previsse, caminhar com a morte não é tarefa dócil. Nem impossível. Nem tampouco menos gratificante. É apenas admiravelmente improvável.

"Once the chaos subsides, we have to go back, take another look. We have to ask ourselves, ‘can this body be put back together?’ If we’ve done our jobs right, it can." 

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Os pensamentos abraçam os alvéolos. Por vezes de forma tão ágil e elástica, que formam pequenos grupos de cristais. Como amoras estranguladas. 
Nesse espaço de tempo e circuito, permitimo-nos viver. Em delírio, ou a saborear simples e lentamente o inequívoco encanto da carne. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

É a minha cabeça. O pensamento.
Trancado, a doer de calor.
Se paro por instantes, e distraída o deixo entrar,
toma forma (de tal forma),
que não se vai.
Igualmente como se nunca tivesse partido.